domingo, 17 de agosto de 2014

Livros para mães - A Máscara da Maternidade, de Susan Maushart



Enquanto inúmeros livros discutem os efeitos da mãe sobre o bebê, Susan Maushart subverte essa lógica, propondo que pensemos sobre os efeitos da maternidade e do bebê sobre as mulheres.

Partindo do fato, relativamente unânime, de que a nossa geração de mulheres conquistou um amplo leque de liberdades (sociais, econômicas, sexuais e culturais) nunca antes atingido pelas gerações anteriores, Susan Maushart vai investigando minuciosamente as diversas facetas dessa realidade (que inclui fortemente as questões da maternidade) e as problemáticas estruturais geradas com essa nova configuração.

Com um senso de humor bem particular e um sarcasmo refinado, Susan Maushart propõe uma reflexão sobre a maternidade do ponto de vista feminino. Visão essa, só possível de ser proposta por uma mulher e que é absolutamente recente se considerarmos que “A noção revolucionária de que o efeito dos filhos sobre as mulheres é igualmente merecedor de estudo foi identificada como uma 'mudança de paradigma' apenas em 1990."¹ 

Em sua pesquisa, ela aponta estudos que "Descobriram que metade - veja bem, metade -  de todas as mães com filhos com menos de cinco anos apresentam sintomas de intenso sofrimento emocional regular ou continuamente; que as mulheres têm cinco vezes mais probabilidade de receber um diagnóstico de problemas mentais no ano seguinte ao nascimento do primeiro filho do que em qualquer outro momento de sua vida."

Antes de nos armarmos até a cabeça contra todos os representantes do sexo oposto, ela lembra que "uma ironia facílima de esquecer é que a maioria desse patriarcado é constituída de mulheres." E que "embora seja verdade dizer que a Máscara da Maternidade foi forjada na bigorna do patriarcado, não é uma ilusão fabricada pelos homens."

Sob esse aspecto, é um livro feminista, mas não é acusatório e não coloca homens e mulheres em pólos opostos em que estas são vítimas daqueles. Fala de como as coisas são (ou parecem ser) sem polarizar, sem ser dialético. Ao contrário, apresenta uma visão interessante sobre a contribuição de homens e mulheres para o estado atual de coisas relacionadas a maternidade e suas inerentes dificuldades que acabam por pesar desproporcionalmente mais sobre os ombros femininos, de uma forma geral.

E se, por um lado, "parece natural (mesmo que também perverso) que os homens minimizem a maternidade, quer como ato criativo, quer como forma de trabalho humano digno." Por outro, é surpreendente o fato de que as mulheres fazem o mesmo. "E não se iluda - as mulheres fazem o mesmo", completa concluindo que "Esse medo e essa desconfiança mútuos que as mulheres sentem umas pelas outras é um elemento-chave para a preservação da Máscara da Maternidade e para "enfraquecimento" das mulheres em geral."

E se você tem alguma dúvida de que essa hostilidade materna mútua existe, pode conferir o que estou falando nestes relatos de blogueiras aqui e aqui.

Por essas e outras constatações, esse livro foi um achado em meio aos meus conflitos internos e foi uma coleção de "verdades" que eu vivia intensamente. O livro é dividido em 7 capítulos que se encadeiam gradativamente: o 1º explica o que é a máscara da maternidade; e os capítulos seguintes descrevem como essa máscara se manifesta na gravidez (2º capítulo), no parto (3º capítulo), nos primeiros meses com o bebê (4º capítulo), na amamentação (5º capítulo), na contradição entre carreira e maternidade (6º capítulo) e no casamento (7º capítulo).

Se você é mulher e mãe recente, vai perceber que cada um destes capítulos contém o grosso do que a própria Susan Maushart chama de "questões da maternidade" e que, invariavelmente, é assunto frequente em conversas de qualquer grupo de mães.

"As questões que giram em torno das maternidade parecem problemáticas porque são problemáticas - e não porque o patriarcado diz que são. As forças que constrangem mulheres hoje são, ao contrário, aquelas que minimizam as dificuldades que enfrentamos, insistindo em dizer que a maternidade não é lá grande coisa, afinal de contas."

Ao apresentar essas questões e demonstrar com inúmeros exemplos e extensa pesquisa que isso é mais comum do que ousamos imaginar, presta um grande serviço para as mães que se sentem inadequadas, porque no fundo, nos leva a concluir, todas ou a maior parte das mães se sentem assim.

Em menor ou maior grau, acho que todas as mulheres enfrentam estas questões, sobretudo no puerpério. E você pode conferir alguns relatos de mães blogueiras sobre isso aqui, aqui e aqui.

Não encontraremos no livro, no entanto, um caminho ou uma sugestão que aponte para uma solução. Isso ainda teremos que construir tanto no âmbito privado quanto no âmbito coletivo, buscando políticas públicas que levem em conta as problemáticas da maternidade/paternidade moderna, que envolvem o modo atual de como gestamos, parimos e criamos os filhos das gerações seguintes. Olhar para estas questões e atribuir-lhe a relevância fundamental que de fato elas tem é um importante legado sobre o qual este livro pode ajudar a lançar luz.

E concordo com ela quando diz que "Deixando de lado por um momento as fascinantes teorias evolutivas ou não, que tentaram explicar esse estado de coisas - e deixando de lado também a indignação que podemos sentir em relação a tudo isso - persiste o fato de que, na "lista de tarefas" para fazer progredir o conhecimento humano, a experiência das mulheres ainda está por merecer um lugar." e quando afirma que "A luta para desmascarar a maternidade é o primeiro passo para reconciliar o poder reprodutivo com direitos e responsabilidades sociais - um desafio peculiarmente feminino, com repercussões para toda a humanidade."

É um livro realmente surpreendente. Mães, leiam! Pais, leiam! Todos, leiam!

LivroA Máscara da Maternidade, de Susan Maushart, Editora Melhoramentos.


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