domingo, 3 de agosto de 2014

A beleza de uma noite sem dormir...


Só quem é de Brasília (ou de alguma outra região com clima de deserto) entende o que quer dizer umidade relativa do ar abaixo de 40% ou menos. E sabe que estamos justamente nessa estação da seca. E conhece bem as consequências respiratórias disso, sobretudo, nas crianças.

Aqui só existe duas estações: seco e frio ou seco e quente. E é por isso que nunca soube dizer exatamente quando é verão, inverno, outono ou primavera. Em Brasília, isso não existe. Ou melhor, existe sim, mas de outra maneira: acordamos no inverno, almoçamos quando chega o verão e antes de dormir já terá chegado a primavera e o outono. Todas as estações num dia só, todos os dias. Tudo isso sob a beleza de um céu deslumbrante e rodeados pela frieza e grandeza arquitetônica da cidade, perante os quais nos sentimos tão somente pequenos.

Brasília é linda sim. Mas de uma beleza que se revela aos poucos. É uma cidade que silenciosamente e misteriosamente desnuda-se, vagarosamente, em cada colorido ipê, em cada outro pequeno detalhe secretamente revelado. É preciso deter-se, pousar o olhar e admirar-se. Leva tempo para que sua beleza tímida resplandeça fulgurante como os raios de sol sob o céu do cerrado.

A despeito de toda essa beleza, viver nessa cidade com clima de deserto é um "cof, cof" sem fim. O Rafael está assim hoje: tosse seca, como o clima de Brasília. E belo, como o céu dessa capital. Na noite passada, ele acordou inúmeras vezes. É impossível dormir tossindo tanto.

Ele me chamou daquele jeito doce: "Vem aqui mamãe, eu quero você."

Eu não queria ir. Queria que ele voltasse a dormir. 1, 2, 3 horas da manhã. Não sei que horas eram. Sofro com a tosse dele. Só queria que parasse de tossir. Que ele voltasse a dormir sereno como um anjo. Isso é paz. Isso é o céu na Terra.

1, 2, 3, 4, 5 vezes ele me chamou. Não dava para dormir sozinho com tanto cof, cof. Também é preciso deter-se e entregar-se. Então, cedi. Fui dormir com ele. Ou melhor, fui não dormir, com ele. Cheguei e me deitei ao seu lado.

Na penumbra, dois olhões disseram: "oi mãe". Se achegou a mim e senti sua mão pequenina e leve pousar-se na minha bochecha. Sorri. Era um carinho sonolento, seguido de um beijinho e doces palavras no escuro: "Mamãe, você é muito legal".

É impossível dizer quanta felicidade cabe nesse instante, apesar da vigília, apesar da seca, apesar da tosse, apesar de qualquer coisa que poderia ser um pesar, mas não é mais.

A maternidade, como Brasília, tem uma beleza que se descobre aos poucos, nos detalhes manifestados na convivência diária, nos segredos de amor revelados numa noite insone e tossida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...