domingo, 6 de julho de 2014

Um filho que cai e uma mãe que... pensa!



O Rafael, como todo toddler, gosta de subir em tudo e pular no chão ou na gente. Em uma dessas vezes, ele não pulou. Ele subiu em um banco que ele mesmo havia trazido e colocado na minha frente e apenas deixou-se cair na minha direção.

Ele não me perguntou se eu estava preparada para ampará-lo e, mais incrível ainda, ele sequer cogitou a hipótese de que eu não o pegaria, ou em outras palavras, que eu falharia, que eu não estaria ali. Apenas "sabia" que eu o seguraria. Apenas confia. Aí, neste exato momento, percebi o óbvio: crianças confiam (em seus pais) e sem reservas, e sem ressalvas, e sem temor e sem nenhuma racionalidade e independentemente das inúmeras imperfeições deles.

Quando somos adultos, ou pelo menos a adulta que sou, precisamos nos esforçar muito para confiar assim. Alguns exercícios como, por exemplo, quando se faz um círculo e uma pessoa fica no centro deixando-se cair de um lado para o outro para ser amparada pelos companheiros de roda, servem justamente para gerar este tipo de confiança que a criança tem naturalmente em seus pais.

Sempre vi esse tipo de exercício como algo absolutamente subversivo e com algo de anarquista. São como ir contra a ordem natural das coisas ou, pelo menos, contra a minha ordem natural de coisas. Nunca participei de nenhum do tipo. Jamais conseguiria simplesmente deixar-me cair.

Aí, ocorre que eu nem estava tão atenta assim às peraltices do menino, que não tínhamos um acordo de que eu o pegaria e que ele nem tinha me avisado que se despejaria e, mesmo assim, subvertendo o mais básico instinto de preservação, ele deixa-se cair corajosamente na minha frente.

E foi quando percebi o erro ou a falácia de ter pensado que não tínhamos um acordo sobre isso. Existe sim um acordo tácito em que filhos confiam em seus pais. Confiam que eles estarão lá ainda que pareçam desatentos, ainda que a paciência tenha se esgotado ou nunca tenha existido, ainda que o dia tenha sido estressante, ainda que sejamos imperfeitos como somos, enfim.

Ainda assim, os filhos esperam que seus pais estejam lá e os amparem, e os compreendam, e os guiem, e lhes deem limites, e lhes deem atenção, presença e amor e tantas outras coisas impossíveis de enumerar. E é por isso que quando falhamos em alguns ou em todos esses itens (e como falhamos!) nossos filhos se sintam, de alguma forma, traídos. (sobretudo na adolescência, né não!?) Porque, no fundo, quebramos esse acordo. E não fazemos isso por falta de vontade de acertar, ou por crueldade, mas unicamente porque somos mesmo falhos e temos inúmeras limitações que nos impedem de corresponder sempre a tão elevadas expectativas.

Nesse dia, contemplei essa confiança desmedida e irracional no meu filho, percebendo que ele espera de mim muito mais do que a minha imperfeição poderia assegurar. E vi, como num flashback, as desmedidas expectativas que eu depositava nos meus pais. Pude amá-los mais após tornar-me mãe.

E, se por um lado, as minhas limitações são a oportunidade para que ele compreenda e aceite as limitações dos outros de uma forma geral, ou dizendo de outra forma, aprenda a grandiosidade do amor incondicional e do perdão. Por outro, não diminuem a enormidade do desafio e a vontade de corresponder a essa sincera confiança.

No fim, mesmo estressada, impaciente e imperfeita acho (e Deus sabe o quanto eu gostaria de estar certa nisso) que tenho amparado o pequeno da mesma forma que, estando desatenta naquele momento, o segurei e evitei que ele se estrebuchasse no chão.

Mesmo que, em inúmeras outras vezes, eu já o tenha deixado cair, como na foto com a testa roxa abaixo.



Desafio grande esse de ser mãe (e pai), né não?!

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