terça-feira, 15 de julho de 2014

Dia das mães, publicidade e consumismo


Brincar é de graça!
 
Eu nunca fui muito consumista não. Nunca tive problemas com o cartão de crédito e nunca fui seduzida por marcas de coisa nenhuma. Mas mesmo assim, não posso negar que já tenha me sentido mal por não poder comprar algo, ou que não tenha sido induzida a achar que tal marca atribuía mais valor ao produto, ou pior ainda, à pessoa.
 
Estou numa de evitar o quanto posso que a escolha do que consumimos (porque é inevitável consumir alguma coisa) seja ditada pela força brutal da publicidade a que somos expostos. Olho para todos os artigos com motivos de algum desenho infantil e viro a cara. Não quero. A não ser que o custo seja menor ou igual a produtos similares "sem marca". Será que não tem um que não tenha desenho, artista ou whatever?!
 
Não é que esses produtos sejam do mal (embora a publicidade seja. Desculpem-me os amigos publicitários). Mas tenho horror às mensagens publicitárias que querem fazer crer que os produtos anunciados atribuem valor às pessoas que os possuem ou venham a possuir, seduzidos por essa falácia. É uma espécie de metonímia forçada e perniciosa em que se substitui a pessoa pelo objeto. Isso ocorre tanto para valorar quanto para inferiorizar a pessoa, a depender de qual marca usa.
 
No fundo, trata-se apenas de vender e afortunar os donos do negócio. E aí não importa a qualidade do produto (que pode ou não corresponder a realidade), não importa a utilidade, a preocupação com a sustentabilidade, a ética na cadeia produtiva, o que se vende é a percepção de que se faz parte de um grupo privilegiado e único por serem donos de uma "edição limitada" de qualquer coisa caríssima.
 
E eu creio que cada pessoa tem um valor único e próprio sim, que cada um tem um nãoseiquê dentro de si com potencial para a felicidade, para o amor e que isso é capaz de produzir frutos em prol de si mesmo e dos outros. Mas esse valor não tem nada a ver com o celular, com o carro, com a bolsa, com o óculos, com o relógio, com o tênis, com a camisa, enfim, com nada que não venha de dentro.
 
Dois fatos me fizeram refletir ainda mais sobre o quanto eu não gosto disso, o quanto me incomoda que haja quem difunda essas mensagens (publicitários) e quem acredite nisso (sociedade em geral).
 
Um fato foi uma garota dizendo que não queria mais usar a mochila dela porque os coleguinhas de uma escola particular iam fazer chacota porque era da Barbie, que é coisa de criancinha, e por aí vai. Acrescente-se a isso o fato de que essa mochila custou mais de 400 dinheiros justamente por ser da Barbie. Preço absurdo, digno da alcunha de $urreal. E que ela queria descartar porque ia ser diminuída em seu valor intrínseco, substituído pelo valor que o grupo atribuía ao objeto, e por conseguinte a ela.
 
Só consigo pensar que não quero isso para mim e, sobretudo, não quero isso para o meu filho. E, por isso, estou optando intencionalmente por escolher os produtos que não tenham "marca" (sem me despreocupar com a qualidade do produto, é claro). Mas não só. Também não quero um lazer que seja comprado a peso de ouro. Se custa uma fortuna, questiono. E na maior parte das vezes, não quero. Prefiro aquele lazer que é de graça ou a custo reduzido, como andar de bicicleta, soltar pipa, um piquenique no parque, etc. O valor dessas coisas não está no preço, mas na experiência em si mesmo, na companhia de pessoas que amo, na vivência agradável, que se tornarão lembranças felizes.
 
O segundo fato foi que a escolinha do Rafael pediu 40 dinheiros para personalizar uma ecobag com fotos para o presente de dia das mães e eu não quis. Eu sei que mãe é bicho bobo (e as escolas também) e se derrete com essas coisinhas, mas eu nem sequer fiquei tentada a participar. Ponderei apenas que eu não precisava de uma ecobag e não ia pagar por algo que eu não preciso. Não é frieza não, mas eu realmente não estou gostando de coisas que associam homenagem às mães (ou qualquer outra data comemorativa) a uma oportunidade de alavancar vendas.
 
Eu sei que o dia das mães já passou, mas o meu pequeno não sabe disso. E quase todos os dias ele me presenteia de novo com o mesmo buquê artesanal que trouxe da escola na véspera do domingo de dia das mães. Basta eu chegar em casa e ele pega o buquezinho de cima do raque e diz: “Feliz dia das mães, mamãe!” Morro de amores. É uma fofura né!? 

E, sem que eu soubesse, quando decidi não comprar a tal ecobag, acabei ganhando um presente muito mais valioso que se renova toda vez que o pequeno vê aquela florzinha e me presenteia de novo. E não está associado a comprar algo. Foi uma lembrancinha feita manualmente com material reciclado pela professora com ajuda das crianças. Vejam que esse presente feito pelo próprio pequeno por si só, não tem valor, mas o gastar tempo e desprender energia em produzi-lo juntamente com a lembrança cotidiana é um doce presente que eu não teria com a ecobag guardada no armário. Assim, ele me ensina que o presente é essa renovação diária de carinho e quase todo dia é Dia das Mães. E acho que é assim que tem que ser toda homenagem: diária e gratuita.

Esses são dois exemplos, mas o cotidiano é recheado de fatos como esses. O que torna o desafio de livrar-me do consumismo uma batalha diária e me obriga a ficar sempre vigilante. E são também oportunidades de viver e ensinar ao Rafael que temos valor em nós mesmos independentemente dos objetos e do que querem nos fazer crer os publicitários.
 

4 comentários:

  1. Show de bola, Jaque! Sempre pensei dessa mesma maneira. Não ligo a mínima pra marca. Mas acredite, à medida que eles vão crescendo e tendo mais contato com outras pessoas, tais como os coleguinhas da escola, mais difícil vai ficando se livrar dessa onda consumista. Mas eu sei que vc consegue! Grande beijo!

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  2. À medida que a influência dos coleguinhas aumenta, vai ficando mais difícil, né? Mas também é uma oportunidade para defendermos com mais intensidade ainda aquilo que acreditamos

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  3. Jaqueline,

    concordo muito com você. E acho sinceramente que essa ânsia consumista gera um problema pras crianças, porque a gente, sem perceber, ensina que o "normal" é sempre consumir alguma coisa, pagar por alguma coisa. Acho isso péssimo pras crianças e pro mundo. O consumo faz parte da vida. Ok, posso viver com isso. Mas acontece que, do jeito que a gente vive hoje, parece que o consumo é a vida. Essa perspectiva, além de altamente limitante (e fonte de todas essas questões que você levantou) ainda traz consigo outros pressupostos, como individualização extrema, competitividade extrema, coisificação e objetificação de pessoas e coisas... Está na hora da gente refletir sobre isso! E fico muito feliz em encontrar gente como você! ;)

    PS: adorando seu blogue. Estou fuçando em tudo.

    bjos,

    Natalie

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    Respostas
    1. Oi Natalie,
      Adorei a sua visita aqui no blog. Sinta-se sempre bem vinda!
      Acho que além dessas consequências que você citou, ainda tem uma outra muito perniciosa que é o indivíduo se escravizar num ciclo vicioso de viver correndo atrás do dinheiro para comprar mais coisas, porque a maior parte das suas experiências com o mundo são intermediadas pelo dinheiro. Eu penso tanto sobre isso que acho que vale outro post...
      Um bjão
      Jaqueline Lima

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