domingo, 8 de junho de 2014

Por que eu proibí a TV?



Para falar o por quê eu proibi sugeri que o Rafael não assistisse mais TV, preciso voltar no tempo e contar a minha gradação lenta de assídua telespectadora para ibope quase 0. Então, senta aí que o papo vai ser longo:

Quando eu era criança lá em varginha (brincadeira, lá no guará mesmo), minha mãe trabalhava e eu ocupava boa parte das minhas tardes com os reclames do plim, plim. Sabia de cor toda a programação. Não tínhamos TV a cabo (há uns 20 anos atrás, aquilo era o olho da cara minha gente. Coisa pra gente chic mesmo. E, no nosso caso, tava valendo era ter feijão, arroz e carne), então o que restava era só o canal 10 da tv aberta, mais pela qualidade da imagem do que da programação. Embora, eu também andasse de bicicleta, de skate, de patins, soltasse pipa e essas coisas, boa parte do meu tempo eu ocupava na frente da TV. Eu não tinha muita autonomia para decidir o que eu ia assistir dentre os três canais abertos, então novelas pra quê te quero. Eu assistia todas e malhação foi umas das preferidas (já fui adolescente e não faz muito tempo assim. kkkk).

Aí no finzinho da adolescência, eu perdi a paciência com as novelas. Nada contra quem curte, mas aquela lenga, lenga que não desenrola e o clímax ser sempre interrompido pelo intervalo comercial ou adiado para o capítulo seguinte me encheu o saco. Tem coisa mais chata do que os atores discutirem a personalidade das personagens no Domingão do Faustão (outro programa que já aboli da minha vida há muito tempo). Cansei. Desde então, dei adeus às novelas. Nunca mais assisti. Por isso, todas as minhas referências de atores e trilhas musicais de novelas tem uma defasagem de pelo menos uns 15 anos. Se a novela bomba e está dando muito assunto, ainda leio algum comentário, algum artigo só para não ficar completamente por fora do que todo mundo comenta. Mas é só. E, como lá em casa só havia uma TV e quem decidia o que assistir não era eu e quase sempre a audiência era das novelas, me afastei um pouco das telinhas.

Aí, quando comecei a trabalhar, comprei a minha primeira televisão e coloquei no meu quarto. Pronto! Foi a primeira vez que me senti completamente livre com a telinha para assistir somente o que me interessava. Foi como receber uma carta de alforria para o controle remoto. Livre para escolher entre aqueles pouco mais de 10 canais (ainda não tinha chegado na TV a cabo) algo que não fosse novela.

Descobri algumas séries como CSI, Monk - Um detetive diferente, o programa Roda Viva da TV Cultura, dentre outros. Via filmes (o que sempre gostei muito). Voltei a ver TV. De outra forma, é claro, mas a telinha estava de volta. Aí, quando me casei, contratei um serviço de TV a cabo. Um pacote bem básico, mas que me abriu o mundo das séries. Assistia todos os dias: Law&Order; The Good Wife; CSI; Lost; Friends (mesmo depois de já ter encerrado a série), etc.

Aí o pequeno nasceu e achei que nunca, veja bem, que NUNCA mais eu ia conseguir assistir nada (ou fazer qualquer outra coisa) porque o pequeno sempre chorava na parte mais interessante do filme e porque quando ele dormia, eu queria ir dormir também. Até que ele foi crescendo e eu fui percebendo que existe vida após a maternidade, que podia, por exemplo, amamentar em frente a TV (e não dava pra fazer muita coisa mesmo além disso). Fizemos as pazes novamente. E assisti todos os filmes da sessão da tarde com o rebento no peito. E até duas novelas: A vida da gente e Cheias de Charme. Foi súper importante para eu me dar conta de que era possível fazer outras coisas que não ficar apenas preocupada com o Rafael. Eu me distraía num momento em que era muito difícil me desligar do rebento e relaxar. (Eu lia também, mas isso deixo para contar em outro post)

Aí o Rafael cresceu mais um pouquinho e eu passei a assistir os desenhos infantis. Ele não parava muito em frente a TV. Quase nenhuma programação o prendia e quando o fazia nunca era por mais de 15 minutos. Ele sempre foi uma criança muito ativa, com muita energia e vontade de fazer tudo, conhecer e mexer em tudo. Sabe aquelas crianças que ficam paradas, meio hipnotizadas em frente a TV, pois é, ele nunca foi assim. Se tinha alguma música nos desenhos, ele pegava algum instrumento e tentava acompanhar fazendo um arranjo. Ia no quarto brincar, pular e tudo, mas não parava muito tempo em frente a TV. Acaba que eu assistia mais que ele.

Eu gostava muito dos desenhos. Assistia todos com ele. Não só para fazer companhia, mas para selecionar os que eu achava adequados. Assim, eu conheço todos e tenho os meus preferidos, como o SuperWhy; Dora, a aventureira; Bubbles guppies; Team Umizoomi; Backyardigans e o Doki. Foi em um episódio do Doki que o Rafael decorou aprendeu o que é gravidade neste episódio aqui.
Um dia desses, o pequeno, com apenas 2 anos, perguntou para o pai:
_Pai, você sabe o que é gravidade?" (Oi?)
_ Não. O que é?
_ É uma coisa muito interessante.
Ok. É mesmo não é!? O mais interessante é o pequeno de apenas 2 anos falar sobre isso. E em outro dia, o pai babão relatava o ocorrido para um conhecido e resolveu chamar o pequeno para 'provar'. E perguntou pra ele:
_Rafael, o que é gravidade?
Aí o pequeno respondeu:
_ É uma força de atração invisível. (hãm... há tá é isso mesmo)

Surpreendente, não? A partir desse episódio e de outros, passei a incentivar muito que ele assistisse a esses desenhos. E até desejei muito ter tido TV a cabo na infância. Esses desenhos são muito interessantes. Muito mesmo. Fiquei impressionada com a qualidade, com a riqueza de conteúdo, com a musicalidade, com o incentivo de boas maneiras e bons hábitos de alimentação. Até que comecei a ler mais sobre essa questão de telas x infância. Descobri que a Academia Americana de Pediatria recomendava que crianças menores de 2 anos não vejam nada de TV e li depoimentos de mães (blogueiras que acompanho) contando a experiência de não permitir que os filhos assistissem TV ou usavam de muita moderação, como aqui, aqui e aqui.

Passei a pensar sobre isso. Conversei com o marido que sempre questionava os meus argumentos. E, em meio as minhas reflexões, uma constatação que já tinha feito assim que comprei a minha primeira TV: ficamos mais distantes quando a TV media toda a nossa interação em família. Venham e acompanhem o que quero dizer. Chegamos em casa, paramos em frente a TV e só conversamos nos intervalos sobre os assuntos agendados pela TV. Não sobra muito tempo para outras atividades como leitura, conversas livres, imaginação (nós adultos ainda temos isso também), desenhar (por que não?), escrever poesia, olhar o pôr-do-sol (que é lindo aqui da minha janela), aprender a costurar, sei lá, qualquer coisa. São horas e horas sem que possamos nos lembrar do que fizemos. Porque não fizemos nada mesmo. Apenas consumimos o que outros produziram. E a questão para mim não é produzir no sentido industrial, mas sim no sentido de elevar a alma, sentir o mundo, fazer poesia com a vida. Enfim, viver mais e assistir menos.

Basta dar um google simples e a busca trará um monte de artigos sobre os malefícios da TV para crianças, tais como: aumento na tendência a obesidade; dificuldade de concentração; incentivo ao consumismo; redução da criatividade e tantas outras. O meu marido questionou muitos desses argumentos e alguns pontos podem ser mesmo questionados, como no meu caso que sempre passei várias horas em frente a TV e sempre tive muita facilidade de concentração. As pesquisas indicam, no entanto, uma maior tendência e não uma regra sem exceção. Porque as exceções estão sempre presentes.

Aliás, não importa qual posição cada um adote, sempre haverá argumentos favoráveis e contrários.

Mas já tem mais de um mês que o Rafael não assiste TV. (Assiste apenas um pouquinho na casa da vovó) Tenho substituído as horas em frente as telinhas por brincadeiras livres; parquinho; visita a amiguinha, neta da vizinha; leituras; cantorias; participação dele nas atividades domésticas e até por tédio. É preciso algum tempo ocioso para criar coisas; para ter liberdade de escolher o que fazer sem estar aprisionado em frente a TV.

Independentemente do que se possa dizer contra ou a favor, o que pesa mesmo é a minha experiência positiva em relação a isso. Ou melhor, muito positiva. No início, ele até pedia para assistir, mas já não pede mais. Agora, ele pede para brincar de pique-esconde, pique-e-pega, essas coisas.

Sinto-me muito mais conectada com o pequeno por estar mais ativamente envolvida com o que ele faz. E só por isso já vale o sacrifício. Por si só isso já seria suficiente para que eu continue por esse caminho. Ele também passou a participar mais do que eu faço, me ajudando a fazer suco; a preparar a marmita do pai; etc. Percebo que ele busca criar brincadeiras sozinho e até consegue se concentrar em algo por conta própria sem a minha presença. (Isso é mais raro, mas acontece)

Pesquiso sempre atividades da pedagogia Montessori para apresentar ao pequeno. Mudei o ambiente, reduzindo a quantidade de brinquedos e os organizei para facilitar o alcance deles e favorecer a autonomia em escolher o que fazer e com que brinquedo brincar.

E, independentemente, de as pesquisas recomendarem isso, eu quero "gastar" o tempo do meu filho de outra forma que não em frente a TV. Na minha realidade de mãe que trabalha, tento aproveitar todas as horas que estou com ele, para, visceralmente, estar com ele. É verdade que nem sempre consigo. Às vezes estou cansada de mais, às vezes só queria ficar quieta. Mas não ligo a TV. Supero meu cansaço e acabo cedendo aos convites para ser monstro, ou cantar, ou ler um livro, ou brincar de guerra de almofada, ou pular na cama (só ele pula) ou qualquer coisa que ele queira. E assim a vida segue. Um dia de cada vez. Não sei até quando, mas por enquanto a TV está de férias sem data de retorno. Talvez eu a demita de vez, talvez eu a convide esporadicamente.

Eu acredito firmemente que Deus dá o dom de ser mãe para cada um individualmente. Ou seja, eu só sei ser mãe do Rafael, porque foi este que o Senhor me confiou. Ninguém melhor do que eu para identificar o que ele precisa ou o que é melhor para ele. Pode ser que eu falhe, mas o dom foi dado para mim. Deus há de completar o que eu não conseguir.

Assim, eu acho que cada mãe escolhe aquilo que convém na dinâmica dos seus filhos e do seu lar e a até onde cada um está disposto ou consegue ir ou o que considera importante transmitir aos filhos e eu tento com todo o coração respeitar isso.

Eu tenho muitas limitações, mas estou dando conta de deixar a TV desligada.
 

2 comentários:

  1. Excelente post Jaque! Eu também senti a necessidade de excluir a TV da minha vida... hoje assisto apenas filmes e séries. Já assisti muitos programas e desenhos com as meninas também... passei por todas essas fases que vc falou e também acho a TV incrivelmente perniciosa. Concordo que devemos gastar mais tempo com as pessoas que amamos.

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    Respostas
    1. Oi Lady,
      Fico muito feliz que vc tenha se identificado com a minha experiência com a TV. Ser mãe nos ajuda a repensar muitos dos nossos hábitos, né?
      Um bjão,
      Jaque

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